PLANEJAMENTO FINANCEIRO A LONGO PRAZO.

José e Maria casaram-se na década de 40. José era contador, empregado num pequeno escritório de contabilidade. Maria era secretária numa corretora de seguros. Como era o costume da época, pouco depois do casamento Maria largou o emprego e foi ser dona de casa e mãe de família. O salário de José não era tão grande, mas era estável, como ele. O mundo parecia um lugar seguro e aconchegante. Pra torná-lo ainda mais seguro e mais aconchegante por sugestão do pai de Maria, pequeno comerciante, o jovem casal foi visitar um consultor financeiro que montou um Plano Financeiro de Longo Prazo para o casal.
Considerava-se isto uma coisa prudente, sensata e perfeitamente admirável de se fazer; até hoje pensa-se assim. Como dizem os grandes sábios, todo casal jovem deve ter um Plano para o futuro da família. As pessoas que tinham planos e as que não tinham eram comparadas à formiga e à cigarra da fábula.
Na vida real, porém, a maioria das vezes é a formiga que acaba com o seu formigueiro fumigado, ou arrasado por um trator. Isto é o que acontece com quem cria raízes nos negócios, e, em boa parte, as raízes nascem dos Planos de Longo Prazo. A cigarra, viajando mais leve pela vida, muda o rumo do voo e sai na frente, quando o caos se aproxima.
Atualmente, José e Maria estão pelos 70 e poucos anos, aposentados. E praticamente quebrados. Se viverem muito mais, acabarão totalmente quebrados, lisinhos, vivendo da caridade pública. Praticamente nenhum dos elementos do Plano a Longo Prazo deles funcionou como deveria.
Na década de 40, achavam que gostariam de aposentar-se com uma renda de Cr$1.000,00 por mês. Quantia que nos anos 40 era dinheiro que não acabava mais.
Hoje em dia, lógico, dependendo do lugar, R$1.000,00 por mês são suficientes pra pagar o aluguel de um quarto-e-sala, mas não pra comer no mesmo mês. Se você insistir em se alimentar, e ainda quiser dinheiro pra se vestir, pra contas médicas e outras despesas, aí já terá problemas.
O Plano a Longo Prazo de José e Maria incluía a compra de uma casinha na qual viveriam aposentados, felizes para sempre. Comprariam a casinha à vista, a fim de não terem de se preocupar com prestações todo mês.
Tendo isto em mente, o Plano previa que teriam economizado, ao atingirem 65-70 anos, uns Cr$40.000,00. Nos anos 40, com Cr$40.000,00 se comprava 2 casas e ainda sobrava troco pra um carro. O Plano não contava que, nos anos 80, o que então era um dinheirão mal compraria uma casinha de cachorro hoje.
De qualquer forma, José e Maria não têm nem R$40.000,00 hoje. A caminho da pobreza, foram atingidos por algumas despesas inesperadas (acontece com todo mundo) e alguns infortúnios (idem). Em meados da década de 60, o patrão de José foi apanhado numa briga judicial complicada envolvendo a falsificação de Balanços de algumas empresas, e perdeu o escritório de contabilidade. O emprego de José foi pro espaço, e junto foi-se a poupança, que foi interrompida e sangrada. Depois de longa busca, ele conseguiu outro emprego, mas jamais chegou perto de Cr$1.000,00 de aposentadoria mensal que ele e Maria planejavam. Depois de se aposentarem, tiveram de recorrer às suas economias. Embora as reservas de que dispõem sejam remuneradas com juros 3 vezes maiores que o previsto, o capital deles derreteu-se feito picolé no sol quente.
Moram num apartamentinho que não dá pra nada, vivem de feijão e arroz, e passam a maior parte do tempo perplexos, se perguntando o que foi que aconteceu.
Duas coisas aconteceram: o Planejamento, e em seguida o Inesperado.
José e Maria prenderam-se demais ao seu Plano. Criaram raízes nele. Na sua cinzenta carreira, José teve várias oportunidades de entrar por caminhos muito mais promissores. Um amigo, por exemplo, convidou-o pra abrir um negócio juntos. O amigo queria montar um escritório de contabilidade de sociedade com José. Esse escritório, e esse amigo, hoje estão muito prósperos. Quando a oportunidade apareceu, porém, José teve medo. O risco parecia demais. Ele e Maria se esconderam no aconchego e conforto do seu Plano. Achavam que não precisavam correr nenhum risco. A vida deles estava todinha planejada. O Plano garantia-lhes uma velhice confortável, uma casinha e uma boa renda. Com esse pássaro na mão, pra que 2 voando?
Foi assim que eles se deixaram embromar pelo seu próprio Plano a Longo Prazo. Não lhes passou pela cabeça que o pássaro que acreditavam ter na mão iria bater asas e voar.
Como diz o velho deitado: Planejamentos a Longo Prazo geram a perigosa crença de que o futuro está sob controle. Poucas crenças são mais perigosas do que esta…
Olhando à frente, mal consigo visualizar a estrutura básica da semana que vem. A continuidade dos acontecimentos só dá pra isso. Numa quarta-feira, talvez, posso me sentar e armar algum tipo de planejamento financeiro pra quarta-feira seguinte. Com certa margem de erro, sou capaz de uma previsão razoavelmente confiável do valor dos meus investimentos, daqui a uma semana. Mesmo um plano ou uma previsão dessas pode acabar de modo ridiculamente errado, é claro… Tanto quanto sei, a Bolsa pode despencar antes da próxima quarta-feira que vem. Eu posso passar com o carro em cima de um guenzo de alguém, e levar pela proa um processo que me arranque até o último centavo, sei lá… De qualquer forma, para um plano de 7 dias eu ainda me garanto… A visibilidade não é lá essas coisas, mas damos um jeito.
Um mês à frente, aí a visibilidade já cai muito; um ano então, e já fica quase tudo embaçado. 10 anos… 20 anos… Bem, aí já não se enxerga mais nada. Nem formas vagas, nem contornos, nada mesmo. E se você não consegue enxergar o objetivo do seu plano, como vai traçar um plano inteligente?
Planejar para um futuro que não se vê? Pra mim isso parece bobagem grossa. Contudo, vendedores de previdência privada, consultores de investimentos e demais especialistas vivem insistindo que é isso mesmo que você tem que fazer, e inúmeras famílias, principalmente famílias jovens, continuam a fazê-lo. Como no tempo de José e Maria, até hoje ainda acham que é muito louvável fazer Planejamentos Financeiros de Longo Prazo. E os resultados continuarão sendo mais ou menos os mesmos.
Um planejamento é uma ilusão de ordem pra toda a vida. Economistas, Administradores Financeiros e o pessoal que vende planos de aposentadoria privada pra daqui a 20-30 anos, falam como se o mundo do dinheiro fosse um lugar da maior ordem, no qual as mudanças se processam lenta e previsivelmente, como uma árvore crescendo. Espiando o próximo século, enxergam um mundo financeiro exatamente igual ao nosso, mais igual até. Maior, mais automatizado, mais isso, mais aquilo. Chegam a essas tranquilizadoras conclusões observando as tendências que caracterizam o nosso mundo, hoje, e jogam essas tendências para o futuro. Tudo muito organizadinho, e aí dá pra cozinhar uma porção de Planejamentos a Longo Prazo no banho-maria.
O que esses planejadores esperançosos esquecem, ou preferem ignorar, é que o mundo do dinheiro se parece com uma árvore crescendo, mas só num sentido muito limitado. É ridículo achar que simplesmente examinando-se as tendências de hoje pode-se enxergar o mundo futuro. Nos próximos 30-40 anos, algumas dessas tendências certamente desaparecerão, ou virarão ao contrário. E ninguém é capaz de dizer quais. Tendências completamente novas surgirão, aparecerão fatores com os quais a gente nem sonha hoje. Eventos totalmente imprevisíveis nos apanharão de surpresa. Mercados subirão, outros simplesmente explodirão, revoluções, guerras, falências, calamidades: quem é capaz de dizer o que vem pela frente?
O mundo no qual serão conduzidos os seus assuntos financeiros, daqui a 30-40 anos, está oculto por trás de uma cortina que não deixa passar nem uma réstia de luz. Não se pode saber nem se existirá um mundo do dinheiro, se existirá o Real, ou o que comprar-se-á com um Real, se ainda existir…
Isso posto, não faça nenhum Plano a Longo Prazo, nem deixe ninguém fazer por você. Só serviria pra atrapalhar. Em vez disso, viva a vida levemente como a cigarra. Em vez de tentar organizar a sua vida pra acomodar coisas imprevisíveis, no futuro, reaja aos fatos à medida que forem acontecendo, no presente. Quando enxergar uma oportunidade, corra atrás; quando vir o perigo, dê o fora.
No que se refere a dinheiro, tudo que precisamos, em matéria de planejamento a longo prazo, é da intenção de ficar rico. Só isso… Como, exatamente, é algo que você não pode saber, a não ser nas linhas mais genéricas. Eu gosto de ações, e geralmente estou afundando nelas até as orelhas. O meu, como então presumo, terá algo a ver com essa área de especulação. Mas é só isso que sei sobre o meu futuro financeiro, e é só isso que eu tentarei saber. O único tipo de preparação que posso fazer pra década que vem, portanto, é continuar estudando o Mercado de Capitais, continuar aprendendo cada vez mais, pra melhorar. Se dá para chamar uma coisa tão vaga como esta de plano, tudo bem, é isso o meu plano.
O seu deve ser igualmente solto, sem amarras. Decida-se a aprender tudo que houver pra aprender sobre os negócios que mais o atraem. Porém, jamais perca de vista a Probabilidade… ou melhor dizendo, a Certeza, de que o seu meio especulativo e as circunstâncias que o afetam se modificarão de forma que não é capaz de imaginar hoje. Não se deixe prender. Não crie raízes como a formiga; não queira ser mais uma vítima potencial do trator do destino.

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Sobre Flavio Marques

Investidor e Mercadoria de Futuro.
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5 respostas para PLANEJAMENTO FINANCEIRO A LONGO PRAZO.

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  2. cri disse:

    quanta bobagem !

    • A bobagem é relativa e faz parte das nossas vidas, não? Ou será que existe algum ser humano que nunca disse ou escreveu alguma bobagem na vida?
      Se existir esse ser humano de inteligência intergaláctica, que nunca disse ou escreveu uma bobagem na vida, favor me apresente… Ou melhor, apresente-o ao mundo…

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